Conflitos e violência por terras no Brasil

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Conflitos no campo: 72% dos assassinatos aconteceram na Amazônia em 2008

A Comissão Pastoral da Terra (CPT) publicou, na semana passada, o relatório anual sobre os conflitos ocorridos no campo no Brasil.  Em 2008, a CPT identificou uma quantidade menor de conflitos pela terra.  Esses conflitos, entretanto, foram mais intensos, já que a quantidade de pessoas assassinadas manteve-se similar a 2007.

Em 2008, foram 751 ocorrências de conflito pela terra, contra 1.057 no ano anterior e ocorreram 27 assassinatos, contra 25 em 2007.  Em relação aos conflitos trabalhistas, em 2008 ocorreu um assassinato, 280 ocorrências de trabalho escravo e 93 ocorrências de superexploração e desrespeito trabalhista.

Desses 28 assassinatos, 20 ocorreram na Amazônia.  Apenas no estado do Pará foram 13 assassinatos.  A maioria das vítimas foram trabalhadores rurais, sem-terras e líderes sindicais.  Na lista, também aparece o nome de Maria dos Anjos Guajajara, criança indígena de 7 anos que foi assassinada em maio de 2008, quando um homem disparou tiros contra uma aldeia no Maranhão.

No mês passado, mais um desses assassinatos ocorreu no Pará: o líder sindicalista Raimundo Nonato, conhecido como Raimundinho, foi morto a tiros no dia 16 de abril.  Segundo a Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), o sindicalista estava recebendo ameaças após denúncias de madeireiros envolvidos em desmatamento ilegal.

Ameaçados de morte De acordo com o relatório, atualmente existem em todo o país 90 pessoas ameaçadas de morte pela atuação no campo.  Na Amazônia, são 64 líderes locais sofrendo ameaças de morte, e apenas o Amapá não tem ninguém na lista.  A situação é mais tensa no Pará, com 35 pessoas ameaçadas.

Na lista, aparecem líderes de reservas extrativistas, como Francisco Caetano, da Resex Baixo Rio Branco-Jauaperi (AM) que sofreu um atentado no ano passado; quatro líderes indígenas da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima; além de trabalhadores rurais, sindicalistas e sem terras.  Reigiosos que se destacam pela defesa dos trabalhadores da região, como Dom Erwin Krautler e Frei Henri Burin Des Roziers, também sofrem ameaças e estão na lista.

No Brasil, violência atinge tribos em disputa por terras

Os pistoleiros desceram de picapes ao amanhecer, com seus rostos escondidos por balaclavas, e invadiram um acampamento cercado por uma plantação de soja em Aral Moreira, no Mato Grosso do Sul, na porosa fronteira do Brasil com o Paraguai.

Testemunhas disseram que os homens atiraram em Nisio Gomes, 59, um líder do povo indígena Guarani, colocaram seu cadáver na picape e partiram.

"Nós queremos os ossos do meu pai", disse Valmir Gomes, 33, um dos filhos de Nísio, que testemunhou o ataque em novembro. "Ele não é um animal para ser levado dessa forma."

Independente dos corpos serem levados ou deixados como testemunha das disputas por terras ancestrais, as mortes e desaparecimentos de líderes indígenas continuam aumentando, deixando uma mancha na ascensão do Brasil como potência econômica.

A expansão de imensas fazendas de gado e plantações em escala industrial nas regiões remotas produziu uma disputa por terras que está deixando os descendentes dos habitantes originais do Brasil desesperados em recuperar as terras tribais, em alguns casos ocupando as propriedades contestadas. Os proprietários não indígenas, por sua vez, muitos dos quais vivendo em terras ocupadas décadas atrás por seus próprios ancestrais sob o chamado programa de colonização do governo, defendem com igual tenacidade suas reivindicações.

O conflito frequentemente resulta em choques violentos, que às vezes terminam tragicamente para os posseiros, armados apenas com arcos e flechas.

Cinquenta e um índios foram mortos no Brasil em 2011; 24 dessas mortes são suspeitas de estarem relacionadas a disputas de terras, segundo o Conselho Indigenista Missionário, uma entidade ligada à Igreja Católica.

As mortes chamaram atenção para um problema que ainda atormenta o Brasil antes da Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, um encontro de milhares que será realizado neste mês no Rio de Janeiro. Há 20 anos, antes da Cúpula da Terra original no Rio, as autoridades responderam às críticas internacionais às mortes dos índios ianomâmis por garimpeiros com a criação de uma reserva de 9,7 milhões de hectares na Amazônia.

Em um gesto menos chamativo, a presidente Dilma Rousseff prosseguiu neste mês com a demarcação de sete áreas indígenas muito menores. Mas Cleber César Buzzato, o secretário executivo do Conselho Indigenista Missionário, disse que a medida foi uma decepção, já que as áreas não costumam ser foco de disputas de terras ou de grandes projetos de infraestrutura financiados pelo Estado.

Enquanto isso prosseguem as disputas de terras em diferentes partes do Brasil. Em alguns casos, os tribunais abriram caminho para alguns povos indígenas, que representam menos de 1% da população de 191 milhões do Brasil, recuperarem suas terras.

Em 2009 no Estado de Roraima, no Norte no país, o Supremo Tribunal Federal expulsou os produtores de arroz não indígenas das terras de 20 mil índios, principalmente da tribo Macuxi. Em um caso neste ano, o Supremo anulou os títulos de posse de quase 200 propriedades no Estado da Bahia, no Nordeste, decidindo que as terras pertenciam à tribo Pataxó-hã-hã-hãe. A decisão foi seguida por confrontos que deixaram pelo menos dois mortos. Mas há um limite para o que os tribunais podem realizar.

Também cresce a tensão em torno de uma legislação proposta que abriria as terras indígenas para mineração, apontando para como a demanda pelos recursos naturais do Brasil pode acentuar as disputas de terra.

Há uma série de ataques contra povos indígenas em andamento no Mato Grosso do Sul, um vasto Estado no Centro-Oeste do Brasil, onde Aral Moreira fica localizada e multinacionais como a Louis Dreyfus, a gigante de commodities francesa, se estabeleceram.

O aumento da riqueza contrasta com o senso de desesperança entre os povos indígenas do Mato Grosso do Sul, que representam cerca de 75 mil dos 2,4 milhões de habitantes do Estado. A marginalização deles tem raízes em políticas implantadas nos anos 30, quando os governantes do Brasil confinaram os Guaranis e outros povos indígenas em pequenas reservas, com a intenção de abrir vastas áreas para colonos.

(Fonte: http://noticias.uol.com.br/internacional/ultimas-noticias/2012/06/13/no-brasil-violencia-atinge-tribos-em-disputa-por-terras.htm)

Disputa de terras perto da fronteira com Brasil causa violência no Paraguai

O Paraguai mobilizou seu Exército nesta sexta-feira para solucionar uma disputa de terra em uma remota reserva floretal no norte do país, perto da fronteira com o Brasil, onde combates deixaram 17 mortos entre policiais e sem-terras.

O incidente aumentou a tensão em torno da questão agrária no Paraguai. A operação foi lançada na fazenda do empresário Blas N. Riquelme. Centenas de policiais chegaram ao local em veículos e helicópteros, com um mandado da Justiça determinando a retirada dos camponeses do terreno.Segundo o ministro do Interior paraguaio, Carlos Filizzola, os confrontos aconteceram durante uma operação policial de reintegração de posse de uma fazenda invadida em Curuguaty, no Departamento (Estado) de Canindeyú, perto da fronteira com o Paraná.

O confronto armado aconteceu em uma região de selva que foi cercada pela polícia, segundo o Ministério do Interior. O presidente Fernando Lugo lamentou as mortes em um pronunciamento na residência presidencial de Mburuvicha Roga, na capital do país. ”Manifesto meu firme apoio às forças de ordem e me solidarizo com as famílias das vítimas que perderam suas vidas durante o cumprimento de uma missão”, afirmou o presidente.

(Fonte: http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/2012-06-15/disputa-de-terras-perto-da-fronteira-com-brasil-causa-violencia-no-paraguai.html)

Violência em terras indígenas 

Proposta pode colocar um fim ao conflito por terras em São Félix (PA)

Após cinco meses do início dos conflitos entre os agricultores assentados e os índios Parakanã, na região da reserva de Apyterewua, em São Félix do Xingu, os órgãos de governo envolvidos apresentaram uma proposta que deve pôr um fim ao impasse. O conflito começou no instante em que os 143 índios da etnia Parakanã tiveram oficialmente direito à terra, depois que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva homologou a reserva indígena Apyterewa no dia 19 de abril deste ano. No entanto, mais de mais 3 mil famílias de colonos já ocupavam o local com o consentimento legal do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), desde 2005. Ontem, o presidente da Fudação Nacional do Índio (Funai), Márcio Meira, anunciou que os direitos tanto dos índios quanto dos colonos serão respeitados para evitar um eminente conflito armado. A reunião foi realizada na sede da Funai e contou com a presença de cerca de 30 colonos da região.

O impasse entre índios e agricultores no sul do Pará deverá estar resolvido no prazo de até quatro anos. A Funai garantiu que até 2010 todas as famílias serão indenizadas e reassentadas em um local. A área ainda não foi definida e será escolhida somente após uma ação combinada entre a própria Funai, o Incra, o Ministério Público Federal e os trabalhadores rurais. Parlamentares federais e vereadores dos três municípios atingidos pelo conflito - Tucumã, São Félix do Xingu e Água Azul do Norte - também acompanharão o processo de definição da área. Um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) vai estabelecer as regras e o levantamento fundiário para saber qual o encaminhamento a ser dado em função do número de ocupantes e das benfeitorias já realizadas pelos colonos nas terras de Apyterewa. A primeira reunião ficou agendada para o próximo dia 28, em São Félix do Xingu. ‘Essa reunião de hoje representa já um indicativo que outrora, nas outras reuniões, o que foi tratado é de forma subjetiva, sem qualquer encaminhamento concreto. E essa reunião favoreceu um encaminhamento, inclusive, que o governo colocasse de forma bastante clara quanta à homologação, quanto à formação de uma comissão pra discutir as questões’, afirmou o prefeito de São Félix do Xingu, Denimar Rodrigues.

Deputado cobra presença do Ministério Público na terra dos índios
Apesar da garantia do presidente da Funai de que o Palácio do Planalto já autorizou um maior volume de recursos a Fundação no Orçamento da União do ano que vem, e de que ‘nenhuma família será prejudicada’, o cordenador da bancada paraense no Congresso, deputado Paulo Rocha (PT-PA) cobrou a presença do Ministério Público Federal que não compareceu ao encontro. Rocha foi um dos articuladores da reunião que visa pôr fim ao conflito que perdura desde o mês de abril. ‘Nós deveríamos sair daqui com todos os caminhos traçados, pois ninguém agüenta mais esse impasse e o sofrimento desses agricultores que aguardam por uma solução’,desabafou. Paulo Rocha acrescentou que esse conflito de Apyterewa é um problema do Estado brasileiro e não apenas de governos. Segundo ele, esse problema se arrasta há anos. ‘O problema dessa área começou com autorização da demarcação que começou em 1992 no governo Collor, mas foi demarcada mesmo no governo Fernando Henrique e neste ano, o presidente Lula assinou o decreto de homologação da terra indígena na área de 773.000 héctares’, acrescentou.

O prefeito Denimar Rodrigues confirmou, ao final do encontro, que ainda tem esperanças de sensibilizar o governo federal a rever a portaria que dá a posse da terra aos índios, mas reconhece que ‘apesar de não concordarmos no todo, com a intransigência, reconhecemos que é a obrigação da Funai não rever a portaria demarcatória. Mas o que nós queremos discutir vai além, e esse recurso da ordem de mais de 120 milhões a ser gastos lá, nós acreditamos que o governo poderia rever a portaria demarcatória, ter essas mesmas pessoas lá e fazer um trabalho de regularização e ordenamento fundiário com grande economia, permitindo que esses recursos pudessem ser usados para assentar as milhares de famílias que ainda estão nos acampamentos lá no município’. Já o diretor do Incra, Raimundo Lima, assegurou que no próximo ano o órgão vai começar a fazer um levantamento das famílias que foram assentadas na reserva. ‘Seremos muito criteriosos no cadastramento desses colonos para que não haja má fé por parte de aproveitadores e daqueles que ainda foram assentados, pois esses terão de aguardar na fila’, disse Lima.


(Fonte: http://ti.socioambiental.org/#!/noticia/49151)

Mortes em conflitos de terra ficam sem resposta na Amazônia

Chicos, Dorothys, Josés e Marias são nomes escritos numa lista de gente marcada para morrer. São homens e mulheres defensores da floresta, mortos em crimes anunciados. Ambientalistas dizem que a lista de jurados de morte ainda tem muitos outros nomes. Quem está inscrito nela pede socorro e proteção. Por que eles continuam morrendo? Ninguém faz nada

Há uma semana, no sudeste do Pará, o líder extrativista José Claudio Ribeiro e sua mulher, Maria do Espírito Santo, perderam a vida numa ação covarde de pistoleiros. O mesmo fim teve o líder camponês Adelino Ramos, em Porto Velho, Rondônia, na última sexta-feira (27). Trata-se de crimes que entram na lista dos mais de 400 trabalhadores rurais assassinados nos últimos dez anos. Esses crimes fazem lembrar o destino trágico de outras lideranças, como Chico Mendes e Dorothy Stang.

As ameaças que várias lideranças sofreram até serem mortas eram do conhecimento das autoridades, segundo movimentos ligados ao campo. O nome de José Claudio Ribeiro, por exemplo, aparece desde 2006 em listas de pessoas marcadas para morrer e que teriam sido encaminhadas a órgãos federais e estaduais. O extrativista paraense, assassinado por defender a floresta, nunca recebeu proteção policial.

“Essa lista existe e não é de hoje. O estado sabe. Seja uma secretaria ou outra recebeu o documento, que foi protocolado no dia 19 de abril em várias secretarias federais e ministérios, e também não foi dada”, afirmou Jane Silva, representante da Comissão Pastoral da Terra.

A Defensoria Pública do Pará coordena no estado o programa de proteção a defensores dos direitos humanos. Na lista de 24 ameaçados de morte, apenas um terço conta com escolta de policiais.

“A dificuldade da escolta, por si só, é um agravante no funcionamento do programa, mas a falta de resolução do problema que gera ameaça também é uma situação muito grave. Você ter terras griladas e áreas indígenas não demarcadas faz com que a situação se agrave ainda mais”, alerta o defensor público Márcio da Silva Cruz.

O agricultor Ulisses Manaças lidera um grupo de trabalhadores rurais no nordeste do Pará e há nove meses aguarda pela proteção do estado. Depois que um amigo de militância foi assassinado na região, o agricultor passou a receber as ameaças.

“Recebi uma ligação de chamada não identificada que dizia que sabia que eu estava chegando de viagem, que sabia onde eu morava e que eu era o próximo, que eu ia morrer”, relata Ulisses.

Leia mais em: http://g1.globo.com/bom-dia-brasil/noticia/2011/05/mortes-em-conflitos-de-terra-ficam-sem-resposta-na-amazonia.html


Conflito de terra coloca o Paraná em evidência

Um relatório da Comissão Pastoral da Terra (CPT) divulgado, ontem, em Brasília coloca o Paraná como o quarto em número de prisões de sem-terras no País, atrás apenas do Distrito Federal, Espírito Santo e Pará. Em 2006 foram 55 casos, contra 35 em 2005, aumento de 57%. Desde 2000 o CPT não registrava um número tão elevado de prisões de trabalhadores rurais no Estado. 

Um outro dado preocupante é o aumento constante no número de famílias violentadas, ameaçadas e intimidadas pelos grupos armados a serviço do latifúndio. Em 2006, foram 764 famílias, um aumento 23,22% se comparado com as 620 famílias em 2005, e de 48,92% na comparação com 2004. Estes dados fazem do Paraná o terceiro (atrás apenas do PA e da BA) no número de famílias vítimas das ações das milícias armadas.

O Paraná continua entre os Estados com maior número de conflitos no campo no Brasil. Foram registrados 76 casos conflitos por terra (que é o registro das ocupações, acampamentos e violência contra a ocupação e a posse). O Estado registra o maior número de acampamentos, 13 no total, envolvendo 1.225 famílias.
O número de conflitos por terra, de ocupações e de acampamentos em todo o País diminuiu 7,82% no ano passado, em comparação a 2005.


(Fonte: http://www.bemparana.com.br/noticia/25525/conflito-de-terra-coloca-o-parana-em-evidencia)

Conflito entre índios e fazendeiros transforma cidades do Mato Grosso do Sul em faroeste

Disputa por terra se estende por toda a fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai

Parece uma cena de guerra. Fazendeiros e índios de lados opostos. No meio da confusão, um tiro: a resposta é com arcos e flechas. O que mais parece um filme de faroeste, é a realidade num dos Estados mais ricos do Brasil: o Mato Grosso do Sul.

O Estado é conhecido como capital do agronegócio. A fortuna está nos pastos: são mais de 20 milhões de cabeças. Além das pastagens, as lavouras de soja e cana também ocupam milhares de quilômetros quadrados, mas, agora, boa parte dessa terra pode mudar de mãos. 

Os conflitos pela terra envolvem os índios Guarani-Kaiuás e os alguns dos maiores fazendeiros da região. A disputa é pela posse de grandes extensões de terra, como uma grande plantação de soja, uma imensidão verde que se perde de vista.

Os índios dizem que a terra é deles porque eles nasceram nela. Os fazendeiros dizem que a terra é deles porque eles pagaram por ela. Enquanto a Justiça não decide quem é o verdadeiro dono, as invasões e os confrontos estão se tornando cada vez mais frequentes.

Os Guarani-Kaiuás são 40 mil. Uma dos povos mais numerosos entre os índios brasileiros. Vinte e cinco mil índios vivem nessa região. Os números que contam os assassinatos entre eles são assustadores. De acordo com o CIMI (conselho indigenista missionário), entre 2.000 e 3,2 mil indígenas foram assassinados no Estado. 

Um conflito que hoje se estende por toda a fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai. Atinge municípios como Caarapó, Amambai, Ponta Porã e Paranhos. 


Leia mais sobre isso em: http://noticias.r7.com/brasil/noticias/conflito-entre-indios-e-fazendeiros-transforma-cidades-do-mato-grosso-do-sul-em-faroeste-20120108.html

Regulamentação vai reduzir conflitos em terras indígenas

A demora do Congresso Nacional em regulamentar os arts. 176 e 231 da Constituição Federal, referente ao aproveitamento das riquezas minerais em terras indígenas, tem estimulado o surgimento de conflitos nessas áreas. Somente nos últimos cinco anos foram desativados 81 garimpos ilegais pela Política Federal no sul do Pará, norte do Mato Grosso, Amazonas, Rondônia e Roraima.

Estamos presenciando uma nova corrida do ouro na Amazônia, ainda mais intensa que as anteriores. Estima-se que mais de 400 mil garimpeiros estão na ativa novamente, a grande maioria atuando ilegalmente em áreas controladas pelo Estado, como unidades de conservação, terras indígenas e terras públicas. Nas terras indígenas, na maioria dos casos, os garimpeiros ilegais atuam de mãos dadas com lideranças indígenas.

Uma das causas da retomada da atividade ilegal na Região Amazônica é a cotação do ouro e do diamante no mercado internacional que, somente este ano, provocou um aumento de 12% aqui no Brasil, motivado pelo aumento da procura por investimentos mais seguros em decorrência da crise econômica atual.

O aumento dos preços das commodities minerais, no entanto, provoca efeitos indesejados no nosso país, como aumento da violência entre garimpeiros e indígenas, evasão de divisas e sonegação de imposto, principalmente, devido ao atraso na falta de regulamentação do setor.

Apenas para relembrar, a eclosão do conflito armado na terra indígena Roosevelt, onde está situado o maior garimpo ilegal de diamantes do mundo atualmente, resultou na morte de 29 garimpeiros em 2004. Apesar disso e da presença ostensiva das forças de segurança no local, o garimpo jamais foi paralisado. Informações reservadas da Abin garantem que sai da terra indígena Roosevelt mensalmente o equivalente a cerca de 100 milhões de reais em diamantes, que são contrabandeados para o mercado internacional.

O atraso do país em termos de regulamentação da Constituição Federal é evidente. O PL 1.610, de 1996, que regulamenta os arts. 176 e 231 da CF-88 para permitir o aproveitamento dos recursos minerais localizados em terras indígenas, e que poderiam evitar esses conflitos e os crimes decorrentes das atividades ilegais, está na Câmara dos Deputados há 16 anos a espera de votação.

Em grande parte, essa demora está associada à negação dos direitos indígenas gerais inscritos na Constituição pelos grupos de interesse hegemônicos instalados no Congresso Nacional, destacadamente a chamada bancada ruralista, que além de travar a tramitação de qualquer projeto de interesse dos indígenas, exige do governo federal uma postura hostil a essas populações. Exemplo disso, é a recém-publicada portaria 303, da AGU, que tenta reduzir a condição dos indígenas a meros ocupantes de suas terra com direito apenas à caça e à pesca.

Depois de tantos anos de espera, a comissão especial constituída para dar parecer ao PL 1.610, à qual tenho a honra de presidir, está se encaminhando para a conclusão de seus trabalhos na expectativa de oferecer à população brasileira uma legislação moderna e eficiente, que preserve os direitos indígenas por um lado e por outro, permita o aproveitamento dos recursos minerais presentes em suas terras em benefício deles próprios e de toda a sociedade. Entendo que é melhor ter uma regulamentação, ainda que não seja perfeita, que não ter nada. A ausência de marco regulatório neste caso, além de representar grave violação à Constituição Federal, permite que grupos econômicos organizados atuem à margem da lei, cooptando os indígenas e levando para fora do País nossas riquezas sem nenhuma contrapartida para os brasileiros.

No decorrer dos quase dois anos, a Comissão procurou ouvir um maior número possível de atores interessados em debater o assunto. Entre os convidados para dar contribuições, estão especialistas em mineração, entidades não governamentais de apoio aos índios, Ministério Público e órgãos governamentais responsáveis pelas políticas de mineração e indigenista no País. Os parlamentares se deslocaram a São Gabriel da Cachoeira, no extremo oeste amazonense e Espigão d’Oeste, em Rondônia, onde foram realizados seminários públicos para propiciar que um número maior de indígenas pudesse participar e apresentar suas contribuições. Foram realizadas missões oficiais ao Equador, Canadá e Austrália com a finalidade de conhecer a legislação existente nesses países para o setor da mineração em terras ocupadas por populações originárias.

Lamentavelmente, o Governo Federal e particularmente a FUNAI, como órgão oficial responsável pela proteção dos povos indígenas, em uma atitude de descaso se recusou em participar das discussões, apostando no naufrágio dos trabalhos da Comissão. Os compromissos assumidos pela presidenta atual, Srª Marta Azevedo e pelo ex-presidente Márcio Meira, de designar um consultor para acompanhar os trabalhos dos parlamentares, contribuir na mobilização das comunidades indígenas para participar dos eventos de consulta e enviar contribuições para serem inseridas no relatório foram sistematicamente descumpridos.

A regulamentação de artigos da Constituição é dever do Congresso Nacional e precisa ser feita mesmo quando contraria a vontade do Poder Executivo. O que está em jogo neste caso é o direito dos povos indígenas e da população brasileira de usufruir dos recursos naturais legalmente, de forma sustentável e com distribuição justa dos benefícios. Protelar o assunto só pode interessar aos que sempre se beneficiaram da ausência de regulamentação para se apropriar ilegalmente dos bens públicos e violar direitos conquistados pelas populações tradicionais.

(Fonte: http://congressoemfoco.uol.com.br/opiniao/forum/regulamentacao-vai-reduzir-conflitos-em-terras-indigenas/)

Desde 1996, 212 assassinatos em conflitos por terras no Pará

MARABÁ E NOVA IPIXUNA (PA) - Palco do assassinato de 19 sem-terra em 1996, no episódio que ficou conhecido como o massacre de Eldorado dos Carajás, o Pará continuou escrevendo páginas horrendas de violência no campo. De lá para cá, nada menos que 212 pessoas foram assassinadas em conflitos agrários, a exemplo de José Cláudio e Maria do Espírito Santo. Na média, desde 1996, foram 14 execuções por ano. Outras 809 sofreram ameaças de morte. Os dados constam de levantamentos da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que avalia a situação na região de Marabá, onde o casal de ambientalistas foi morto, como a pior do estado.

- As pessoas têm a impressão de que, depois de Carajás, a situação melhorou. Não é verdade. Pecuaristas, madeireiros, monocultores exercem uma pressão violenta. A consequência tem sido os mortos - avalia o advogado da CPT, José Batista.

Conforme os relatórios da Pastoral da Terra, 463 fazendas foram ocupadas no estado desde 1996. Nessas áreas, 75,8 mil famílias se instalaram, e 31,5 mil já foram despejadas. Um permanente caldeirão de embates que já resultaram em 799 prisões. Segundo Batista, em cada dez mortos em conflitos no estado, sete são na região de Marabá. Um dos motivos é a avançada devastação na área. Restam muito poucas áreas de florestas, o que aumenta a cobiça pela madeira remanescente.

Além disso, afirma o advogado, a perspectiva de mudanças no Código Florestal favoreceu as derrubadas. O assentamento Praialta-Piranheiras é uma das poucas áreas preservadas na região. José Cláudio e Maria, assim como outros assentados, trabalhavam na produção de açaí, castanha-do-pará, cupuaçu e andiroba, além de plantar e pescar. Rondando áreas cada vez mais devastadas de floresta, a atividade madeireira rende lucros vultosos, apesar dos riscos. Uma castanheira negociada no mercado internacional pode render R$ 22 mil de lucro. Os galhos finos são transformados em carvão e vendidos à indústria do ferro-gusa.

(Fonte: 
http://oglobo.globo.com/politica/desde-1996-212-assassinatos-em-conflitos-por-terras-no-para-2763645)